Especialistas comentam o sucesso dos romances coreanos no Brasil
Entenda por que romances coreanos e doramas cresceram no Brasil, com análises sobre consumo, identificação cultural e fandoms.
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O romance que atravessou a tela e chegou à estante
Basta uma cena de confissão sob chuva, um contrato de namoro que vira sentimento real ou um reencontro depois de anos para que milhares de fãs brasileiros saibam exatamente do que se trata. Os romances coreanos, impulsionados pelos doramas, deixaram de ser um nicho silencioso para ocupar conversas em redes sociais, clubes de leitura, eventos de cultura pop e listas de mais assistidos nas plataformas de streaming. Para entender esse movimento, este artigo reúne um recorte em formato de entrevista com especialistas em cultura asiática, mercado editorial, comportamento digital e comunidades de fãs. O ponto em comum entre as respostas é claro: o público brasileiro encontrou nas narrativas coreanas uma mistura rara de emoção, estética, ritmo e acolhimento.
Por que os romances coreanos conquistaram tantos brasileiros?
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Para a pesquisadora de mídia e cultura pop Helena Duarte, o sucesso começa na forma como essas histórias administram a expectativa. Segundo ela, o romance coreano costuma valorizar o percurso, e não somente o desfecho. O primeiro olhar, o gesto de cuidado, o silêncio depois de uma briga e a demora até o beijo têm peso narrativo. Isso cria uma experiência afetiva que conversa muito bem com o público brasileiro, acostumado a novelas, melodramas familiares e histórias de superação. Já o editor de ficção contemporânea Marcos Noh observa que há uma combinação eficiente entre familiaridade e novidade. Os temas são universais, como amor, luto, amizade, ambição e reconciliação, mas chegam embalados por códigos culturais diferentes, como hierarquias de trabalho, refeições compartilhadas, respeito aos mais velhos e rituais cotidianos que despertam curiosidade.
Como os doramas mudaram os hábitos de consumo?
A crítica audiovisual Camila Reis resume a virada em uma frase: o dorama ensinou muita gente a consumir romance em maratona emocional. Diferentemente de séries ocidentais que podem se estender por muitas temporadas, boa parte dos doramas tem começo, meio e fim bem definidos, geralmente em 12 a 20 episódios. Essa estrutura facilita a entrada de novos fãs, porque a promessa de fechamento é forte. A pessoa sabe que vai sofrer, torcer e se emocionar, mas também sabe que a jornada será concluída. Camila destaca ainda o efeito das plataformas. Catálogos com legendas em português, recomendações automáticas e trailers curtos criaram uma ponte simples entre curiosidade e hábito. Quem termina uma série rapidamente recebe a sugestão de outra com protagonista parecido, trope semelhante ou clima emocional equivalente.
A identificação cultural pesa mais do que parece?
Segundo a antropóloga cultural Renata Kim, a identificação não acontece porque Brasil e Coreia do Sul sejam iguais, mas porque muitos conflitos são reconhecíveis. Famílias opinando sobre escolhas amorosas, pressão por estabilidade, diferenças de classe, dedicação intensa ao trabalho e culpa diante das expectativas dos pais são temas que atravessam fronteiras. O fã brasileiro pode estranhar determinados costumes, mas entende o peso emocional das situações. Renata chama atenção para outro elemento: a delicadeza como linguagem afetiva. Em muitos romances coreanos, cuidar é comprar remédio, preparar comida, esperar alguém chegar em casa, cobrir a pessoa com um casaco. Esses gestos pequenos comunicam amor de forma muito direta para um público que valoriza carinho cotidiano, mesmo quando a declaração verbal demora a acontecer.
O que os fãs procuram nesses romances?
A mediadora de clubes de leitura Júlia Matsuda afirma que os fãs costumam buscar três experiências principais: conforto, intensidade e esperança. O conforto aparece nas fórmulas conhecidas, como amigos de infância, romance no escritório, casal falso, inimigos que se apaixonam e reencontros marcados pelo destino. A intensidade vem do drama emocional, das trilhas sonoras marcantes e dos dilemas morais que testam personagens. A esperança, por sua vez, está na ideia de que pessoas feridas ainda podem ser amadas. Júlia nota que muitas leitoras e espectadores comentam a sensação de pausa no caos. Depois de um dia pesado, acompanhar uma história em que sentimentos são tratados com cuidado funciona quase como um ritual. Não se trata de ingenuidade, e sim de procurar narrativas que ofereçam reparação simbólica.
Há diferença entre ver doramas e ler romances coreanos?
Para Marcos Noh, as duas experiências se alimentam. O dorama costuma ser a porta de entrada, pois entrega rosto, figurino, trilha, paisagem urbana e uma gramática visual muito sedutora. A leitura, no entanto, aprofunda pensamentos, hesitações e camadas internas que nem sempre cabem na tela. Com o crescimento de traduções, webtoons, light novels e livros inspirados em sensibilidades próximas às dos dramas coreanos, muitos fãs passaram a procurar histórias que mantenham o mesmo tipo de emoção fora do streaming. Helena Duarte observa que isso cria um consumo circular: a pessoa assiste a uma série, procura o elenco, descobre a trilha, entra em comunidades, recebe indicação de livro, lê uma obra parecida e volta para outro dorama. O romance vira um ecossistema, não um produto isolado.
Qual é o papel das redes sociais nessa febre?
A analista de comunidades digitais Beatriz Almeida aponta que TikTok, Instagram, X e grupos de mensagens transformaram o consumo em conversa permanente. Antes, a pessoa assistia sozinha e talvez comentasse com poucos amigos. Agora, publica reação ao episódio, grava vídeo chorando com o final, compartilha lista de casais favoritos e participa de debates sobre finais felizes ou segundas temporadas. Essa sociabilidade acelera a descoberta. Um corte de 30 segundos pode apresentar uma série a milhares de pessoas, enquanto uma thread bem-humorada explica por que determinado casal merece atenção. Beatriz também ressalta a força do vocabulário compartilhado. Termos como second lead syndrome, comfort drama e slow burn ajudam os fãs a nomear sensações, encontrar semelhantes e organizar recomendações.
O crescimento dos doramas influencia o mercado editorial brasileiro?
Sim, e de maneira cada vez mais visível. Editoras observam capas com estética delicada, protagonistas asiáticos, tramas de amadurecimento e romances de cura emocional com mais atenção. Livrarias e clubes de assinatura passaram a destacar obras que dialogam com o imaginário dos doramas, mesmo quando não são adaptações. Para o editor Marcos Noh, o mercado brasileiro percebeu que existe uma leitora disposta a comprar livros por atmosfera. Ela procura histórias que entreguem sentimentos parecidos aos de uma série querida: tensão romântica gradual, personagens gentis, humor de convivência e um final emocionalmente satisfatório. Esse interesse também abre espaço para autoras brasileiras influenciadas pela cultura coreana, que criam tramas locais com referências a fandom, K-pop, comida, intercâmbio e plataformas digitais.
O fenômeno deve continuar crescendo no Brasil?
Os especialistas entrevistados veem espaço para crescimento, mas com um público mais exigente. A fase da descoberta abre caminho para a fase da curadoria. Fãs já não querem apenas qualquer história coreana disponível; querem boas legendas, diversidade de gêneros, protagonistas bem construídas, romances saudáveis e discussões mais ricas sobre cultura. Também cresce o interesse por obras que fujam do romance convencional, como dramas jurídicos, históricos, médicos, fantásticos e familiares, ainda que o eixo afetivo continue importante. Para Renata Kim, o futuro do fenômeno dependerá da capacidade de tratar a Coreia do Sul como cultura viva, complexa e contraditória, não como fantasia perfeita. Quando o encanto vem acompanhado de curiosidade respeitosa, o vínculo tende a amadurecer. E, pelo entusiasmo dos fãs brasileiros, essa história ainda está longe do episódio final.